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Admiro os argumentistas que conseguem criar boas comédias. E aqui com todos os meus ingredientes preferidos: uma família, alguns amigos, um cão, uma paisagem de prender a respiração, e uma verdadeira aventura. 

Achei engraçado o resumo na página do IMDB: a história da mulher que gosta mais do cão do que do marido. E um dia o marido perde o cão...

Se formos justos, o cão é a personagem principal, embora apareça apenas no princípio e no fim do filme. O cão está sempre presente, mesmo quando está ausente. Ele é a personagem que irá ligar a família e ajudá-los a valorizar o que verdadeiramente importa. E sem lamechices, mesmo quando mostra o lado chato da vida dos cães: abandonados, colocados em canis superlotados, abatidos quando não adoptados. E já para não falar do lado chato da vida das pessoas: envelhecer, os problemas dos ossos, as pedras nos rins, os exames médicos.

O que sobressai neste filme: o guião, as personagens, o ritmo certo dos diálogos, os actores. Nos filmes de Kasdan as personagens brilham. Há sempre uma certa excentricidade, uma luninosidade, uma rebeldia, uma alegria, distribuídas em doses generosas pelas personagens. A tristeza pode abaná-las mas não as derruba. É essa a marca registada de Kasdan. 

A importância do cão já a vimos numa tragédia, o Turista Acidental, e também no papel de aproximar o homem triste e solitário da mulher alegre e sociável. 

Aqui, depois de salvo na auto-estrada pela mãe e filha, conseguirá a proeza de arranjar o marido perfeito, o veterinário, para a filha, fazer companhia à mãe na fase do ninho vazio, aproximar o casal que está desintonizado e ainda ajudar o sobrinho a aceitar o novo namorado da mãe (dele). 

 

 

 

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publicado às 21:44

E tudo funciona...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.11.11

Por esta altura, já todos perceberam que gosto dos filmes do Woody Allen. Já são quatro a navegar neste rio...

Nunca apreciei o actor principal (conhecia-o de uma série em que desempenhava um papel mais do que irritante), mas este papel foi uma verdadeira surpresa! Aliás, todo o filme é uma surpresa! Diria mesmo... uma surpresa refrescante! Quem diria, um filme em que a personagem principal é um sessentão hiponcondríaco e com mau feitio, pessimista e cínico até à medula, ex-cientista de física quântica, que sobreviveu a uma tentativa de suicídio. Dá para acreditar?

Gostei da forma como o Woody interage de forma cúmplice com os espectadores, e logo desde o início do filme, através da personagem. Este jogo sempre me agradou. E já não é a primeira vez nos seus filmes.

 

Neste filme tudo acaba por funcionar, até as situações mais improváveis, o que é uma mensagem insolitamente e atrevidamente refrescante, não acham?

 

Uma rapariga vinda do "sul profundo", que não sobreviveria três dias na selva nova-iorquina, é acolhida pelo nosso cínico. Contrariado, acaba por lhe mostrar os sítios históricos e turísticos da cidade. Sem se aperceber, a rapariga estava a absorver a sua perspectiva da vida e do mundo, com pormenores científicos e tudo. Contrariamente a todas as probabilidades, acabam casados e a viver uma certa harmonia caseira.

 

A mãe da rapariga é outra revelação tardia: de mulher abandonada pelo marido passa a artista num ápice, abre-se a novas experiências acabando num "ménage à trois" com o crítico de arte e o director da galeria.

Um processo semelhante de descoberta pessoal acabará por acontecer ao pai da rapariga: aceita finalmente a sua natureza e assume um novo relacionamento.

 

A mensagem do filme é tão simples que também funciona: o mundo é um lugar tão frio, impessoal e perigoso que devemos acarinhar o que quer que funcione nas nossas vidas.

A rapariga, depois de muita hesitação, acaba por se aproximar do jovem actor, o que deixa o nosso cínico herói subitamente murcho. E até mesmo a segunda tentativa de suicídio falhada o leva a aterrar num relacionamento que funciona: uma médium que passeava o cão e ia mesmo a passar debaixo da janela. Dá para acreditar?

 

 

 

 

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publicado às 21:44

As encruzilhadas da vida e a magia da atracção

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.11.10

 

Duas surpresas cinematográficas: As Confissões de Schmidt e A Maldição do Escorpião Jade. Dois filmes no mesmo dia, num daqueles canais-que-passam-filmes. Que resisti por diversas vezes a ver, vá-se lá saber porquê. Bem, As Confissões de Schmidt não me atraiu quando saiu o trailer publicitário. A ideia de um homem zangado e amargurado, numa atmosfera cinzenta, não me entusiasmou na altura. A Maldição do Escorpião Jade pareceu-me muito rebuscado, a começar pelo título.

 

Mal sabia eu que As Confissões de Schmidt era muito mais do que alguns dias difíceis de uma vida solitária. É a aceitação da realidade após a revolta e a tentativa de dar mesmo a volta ao filme da vida. É a visita aos locais-chave de um percurso e colocar tudo em perspectiva. É respeitar os outros mesmo que não se queira partilhar a vida com eles. É delimitar essas fronteiras para poder conviver. É render-se, não controlar a vontade de outro, apenas manter intacto o seu próprio espaço e lista de prioridades pessoais. É partilhar com quem se quer finalmente partilhar alguma coisa de verdadeiro, real, palpável, tocar uma outra vida de forma leve e benéfica. É isso afinal que ficará de Schmidt, a sua influência na vida de um garotinho africano.

A parte mais comovente do filme está nesse monólogo de Schmidt ao regressar a casa, depois dessa aventura e desse percurso, e na leitura da carta de África e no desenho de Ndugo. Mas a minha parte preferida é, sem dúvida, o discurso no casamento da filha. É com esforço e num terrível conflito interno que Schmidt decide pegar, no discurso, pela parte luminosa dos anfitriões, o noivo e os pais do noivo. Depois de ter verificado nada poder fazer para impedir o erro do casamento, resta-lhe respeitar a filha e minimizar os danos futuros. É preciso discernimento e coragem, não acham?

 

E mal sabia eu que esta Maldição do Escorpião Jade guardava lines fabulosas em ritmo frenético e numa atmosfera muito cinematográfica à anos 40, onde as mulheres eram criaturas belas e misteriosas e respondiam à letra às tiradas masculinas! Woody Allen veste muito bem o papel de um detective de uma companhia de seguros e até a, por vezes irritante, Helen Hunt, vai maravilhosamente bem no papel de colega competitiva.

A história está muito bem engendrada, digamos que já tinha saudades destes guiões criativos, mas o que sobressai são mesmo os diálogos inteligentes, cheios de ritmo, de ironia e sarcasmo, os ingredientes da atracção. A magia que pensávamos estar na hipnose, estava afinal na atracção que os dois colegas-detectives não querem assumir. Estes ingredientes vimo-los em filmes dos anos 40, o estilo sexy e misterioso, os segredos, as supostas rivalidades, as discussões, a fúria, o enganador desprezo, para logo depois caírem nos braços um do outro.

O cinema era assim, não imitava a vida real. Daí esta line fabulosa de Woody antes de beijar a Helen: Antes de acordarmos para a vida real... E têm direito a fogo-de-artifício e tudo! Woody Allen gosta muito de jogar com o sonho e a vida real nos filmes, é um jogo duplo que funciona muito bem.

O momento mais fabuloso será mesmo no final. Woody pensa que a Helen ainda está sob o efeito da hipnose, mas joga a última cartada. Quando se apercebe que ela também já tinha sido desprogramada, fica sem palavras, pela primeira vez no filme todo, fica sem palavras. Esse momento é fabuloso.

 

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publicado às 17:44

Efeitos colaterais da lua cheia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.03.09

 

Mais do que uma comédia romântica, Moonstruck é uma inspiração, a meu ver, para quem desistiu de arriscar qualquer relacionamento, porque estão todos condenados ao fracasso ou porque não se tem sorte. Esta é a convicção de uma viúva que trabalha como contabilista e vive no casarão dos pais. (E este é o papel da Cher, sem dúvida!)

Moonstruck é igualmente uma fonte riquíssima de lines cómicas, do início ao fim. Animaram-me muitos dias cinzentos. Tantas vezes revi este filme, que acabei por memorizá-las. E penso que ainda as sei de cor.

 

Estas personagens representam alguns tipos de comportamento da comunidade italiana mas, na sua essência, são universais.

A solidão assumida e desencantada de algumas mulheres.

A crise masculina da meia-idade e a conquista de mulheres mais jovens ou mais fogozas.

A mulher traída e negligenciada.

O solteirão menino-da-mamã.

A mãe possessiva e egoísta.

O jovem sensível e revoltado.

O patriarca que se sente confuso com tantas alterações emocionais e afectivas na família.

O casal de meia idade que mantém a paixão e a alegria da juventude.

 

E ainda não cheguei à lua cheia!

 

Voltemos então ao início:

Uma viúva trintona (Cher) janta num restaurante italiano com o namorado, um solteirão menino-da-mamã. Ela própria já assume um papel maternal com este homem. Lá pela sobremesa, ele resolve declarar-se. Ela exige que se ajoelhe. E isto em pleno restaurante. Ele obedece. Ela insiste, refilona: Where is the ring?

Ele improvisa e retira o seu próprio anel do dedo mínimo. Terá de servir por agora.

Ela acompanha-o ao aeroporto. Ele vai à Sicília ver a mãe que está nas últimas... (em breve saberemos que a mãe ficou nesse estado ao saber que o filho ia casar).

Ela dá-lhe conselhos maternais. Ele aceita-os naturalmente. Despedem-se.

Ela fica a ver o avião partir. Ao seu lado está uma velhinha aparentemente inofensiva, vestida de escuro. E diz-lhe que acaba de lançar uma praga sobre o avião para que caia no oceano. É que no avião segue a sua irmã, que lhe roubara o homem que amara na juventude, e que agora até lhe confessara nunca ter gostado dele. Ela não se deixa impressionar, é uma mulher prática: I don't believe in curses...

 

Ela volta a casa, encontra o pai na cozinha e dá-lhe a grande novidade. O pai nem quer acreditar que ela quer casar de novo e logo com aquele big baby!

Vão até ao quarto contar a novidade à mãe (fabulosa Dukakis) que abre os olhos quando os vê entrar e num queixume pergunta: Who's dead?

E o mote está dado. Sempre em crescendo, os acontecimentos precipitam-se, acompanhados por uma magnífica lua cheia!

 

Quem poderia sequer imaginar que um simples convite de casamento, ao único irmão do namorado, iria despertar nela a paixão e revelar-lhe mesmo uma dimensão do amor que nunca tinha vivido? Esta cena é mesmo impressionante! Um jovem atormentado, porque perdera a mão e a noiva e tudo em sequência... e que por toda essa desgraça ainda culpava o irmão... I lost my hand! I lost my girl! I lost my life! And my brother Johnny is getting married! Sim, um jovem sensível e teatral, que mora por cima da padaria onde trabalha e que ouve ópera a toda a hora.

Enquanto ela lhe prepara um bife mal passado, ele coloca o disco a tocar. Ela olha-o tranquilamente a comer com apetite, this is good, e responde às suas perguntas curiosas: sim, fora casada mas teve bad luck, o marido morrera atropelado pouco depois do casamento, não, nunca casara de novo, sim, ia casar com o Johnny... Ele alerta-a para o erro, fora por causa do irmão que perdera a mão, e ela até poderia perder a cabeça.

Bem, a partir daqui terão mesmo de ver o filme!

 

 

 

 

 

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publicado às 20:53

O musical voltou!

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.03.09


Sim, o musical voltou! Mamma Mia!

Com todas as regras que se esperam de um musical. E não é nada simples montá-lo! Porquê?

Para já, o ritmo, o timing. É como na comédia, o timing é o segredo.

Depois, o equilíbrio final: as canções têm de se enquadrar na sequência das cenas. E já sabemos de outros musicais como isto é difícil, meter a canção certa no tempo certo, sem parecer uma colagem por cima da cena, o que provoca o riso dos espectadores. Em Mamma Mia! isso também acontece (é inevitável), mas não lhe retira o sabor, e o sabor... é o mesmo do velho musical! Sim, com todos os ingredientes: emoção, sentimentos, conflitos, romance, amizade, humor. Está lá tudo!

 

A escolha dos actores: aqui é mesmo brilhante. A Meryl Streep está fabulosa! A mímica, a expressão, o humor,  e aquela voz! Voz perfeita para a música country, sem dúvida. E que se adapta perfeitamnte à canção pop ou à Broadway. E vê-se que delirou cantar e dançar! O Pierce Brosnan, igualmente fabuloso! Mesmo que o tenham criticado (who cares?) neste papel, gostei daquela voz à Peter Gabriel e se fica um pouco estranho nalgumas canções, como a SOS, é com tanta convicção que as interpreta... que chega a ser enternecedor. (Já sei o que estão a pensar, que perdoaria tudo ao Pierce Brosnan porque é tão atraente... seus marotos.) Bem, todos eles estão perfeitos no papel. E quem diria que o Colin Firth sabia cantar, ein?

 

A coreografia: impecável. Há mesmo momentos fora de série: a cena inicial da rapariga e as damas de honor; a sequência da Meryl Streep com os três homens daquele verão há 20 anos; todas as suas cenas com as  amigas inseparáveis; a sequência da praia em que as mulheres põem os homens k.o.; o grupo de mulheres que se vai juntando a uma Meryl Streep inspirada, acabando a mergulhar no mar...

 

Os enquadramentos: agora compreendo porque tantos escolhem a Grécia para passar férias...

 

Quanto à acção: o tema "casamento" pega sempre bem nos musicais. E neste caso, com o sabor do suspense: quem será o pai da rapariga? E porque é que a mãe da rapariga nunca arriscou uma nova relação amorosa?


Como nos romances, há o herói e a heroína, neste caso a mãe da rapariga e o homem que voltou para ficar com ela mas que a soube noutros braços... Também nos romances há o encontro e o desencontro... (Aqui voltarão a encontrar-se.)



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publicado às 21:13

Quando o homem da notícia se apaixona pela protagonista da notícia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.07.08

 

It happened one night. A rapariga mimada que foge do papá protector para casar com um playboy e o jornalista ambicioso que quer contar a história.

E é a partir desta história que Frank Capra nos mostra a América dos anos 30, a América da Depressão, a América das enormes desigualdades sociais e do "Salve-se Quem Puder", do sensacionalismo, do desenrascanço, do oportunismo, mas também da solidariedade, sensibilidade, simplicidade e autenticidade.

Só por aquela cena do autocarro de longo curso, vale a pena ver o filme! Aqui temos, de certo modo, o povo americano musical e solidário, que enfrenta adversidades com alegria e humor. Esta cena é das mais fascinantes que eu já vi em cinema!

 

Mas muitas outras cenas, algumas comoventes, outras hilariantes:

As cenas do motel, onde aparecem nítidas as diferenças culturais e de comportamento social, os diferentes modos de lidar com o mundo e a realidade. A timidez e snobismo da rapariga a contrastar com a descontracção e auto-confiança do jornalista.

Dormir ao relento, cena poética e reveladora de um novo sentimento a surgir e a surpreendê-los.

A travessia do rio, com a rapariga às costas do jornalista.

A pedir boleia, esta talvez a mais conhecida.

A conversa do jornalista com o pai da noiva, para ver "como se parece o amor quando é triunfante".

E, claro!, a clássica fuga da noiva, véu ao vento, do seu próprio casamento.

 

E é bem verdade que aqui "o amor triunfa" com direito a lua-de-mel romântica, no motel que tinham partilhado ao longo desta aventura.

 

 

Também aqui, a navegar...

 

 

 

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publicado às 11:02

The Trouble With Harry: de novo Hitchcock a animar os nossos dias! A começar pelas fabulosas cores outonais, em planos engraçadíssimos, como aquele logo no início: dois sapatos em grande plano, alguém que se aproxima, e a seguir vemos que os sapatos são do “nosso Harry” ali estendido, mesmo no meio da clareira, sobre as folhas outonais. A partir daqui é uma sequência delirante de cenas inesquecíveis:

A descoberta do Harry; as cores fabulosas de um Outono perfeito (para todos, menos para o Harry, claro!); as diversas personagens a tentar perceber qual teria sido o tiro fatal; as voltas que o pobre do Harry (que, pelos vistos, nem era boa pessoa…) deu com aquele grupo; as peripécias para o enterrar e desenterrar…

O pintor e a rapariga sensual quando se conhecem e se sentem atraídos; o pintor a aconselhar a mulher de meia idade a melhorar a sua imagem para seduzir o velho oficial da marinha; o miúdo com o coelho morto na mão a trocar novamente as contas aos tiros (feitas e refeitas pelo nosso grupo)…

As caminhadas das quatro personagens de perfil, recortadas na magnífica paisagem outonal; todos os diálogos, a dois ou a quatro; o desfecho inesperado e sortudo daquele mistério…

Hitchcock consegue aqui as suas personagens mais terrenas e pragmáticas, mais à escala humana e, por isso, também mais cómicas (mas esta, é claro, a minha opinião pessoal…)

Hitchcock maroto e brincalhão, como sempre! E que grupo de actores fabulosos, todos eles! Porque não terá tido John Forsythe mais papéis, personagens assim, que podia vestir tão bem? John Forsythe bem merecia ter tido outra visibilidade!

(Este filme de Hitchcock ainda o vi em 87, num dos ciclos de cinema do Gil Vicente, em Coimbra. Assim como The Rope e Vertigo…)

 

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publicado às 16:05

Manhattan

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.04.08

 

Manhattan…Woody Allen e Nova Iorque. Woody Allen e os diálogos delirantes. Woody Allen e Gershwin. A preto e branco.

Woody Allen frenético nos monólogos, onde várias ideias se cruzam, sempre um pouco neuróticas (bem, muito neuróticas...).

Nelerevemo-nos tantas vezes… As nossas pequenas existências, muitas vezes baralhadas, trocadas, torcidas, mas sempre (bem, quase sempre…) cómicas.

Manhattan, pois. O amor pela cidade de Nova Iorque nas imagens da cidade, a preto e branco, e na música de Gershwin. E logo a seguir o amor real, à escala humana, embora de duração tão improvável (daí o seu maior valor…) entre um cínico neurótico e uma rapariga simples e carinhosa. Amor que, apesar das inseguranças do homem, sobreviverá no final da história. E finalmente as dúvidas filosóficas sobre a vida, a solidão, os afectos, as inseguranças humanas.

Cenas inesquecíveis:

As conversas a dois, com a rapariga, em que Woody a aconselha a viver e a voar, que tem a vida à sua frente, ele é velho para ela… e a cena da despedida, verdadeiramente dorida de tão discreta na sua dor (doce doce Muriel…);

As dúvidas de Woody sobre a sua capacidade de comediante, mudando o rumo para viver da escrita e ficando com problemas acrescidos de dificuldades financeiras: perfeitamente visíveis no novo apartamento e na cor castanha da água que sai da torneira;

Todas as conversas dos dois amigos sobre as mulheres, os afectos, as complicações, os problemas financeiros, a cidade, os carros (Woody só se movimenta de táxi, recusando-se a contribuir para a poluição global e engarrafamentos) e as conversas a quatro, com uma Diane Keaton armada em filósofa arrogante, a criticar escritores (enquanto caminham, ao longo do passeio) e as obras na exposição (quando de novo se encontram os quatro);

Toda a visita ao planetário, Woody com Diane, dois perfeitos neuróticos… e a correria no parque debaixo da tempestade chuvosa…

Mas a cena mais impressionante é a final, no hall de entrada do prédio de Muriel, naquela troca de papéis. Tens de aprender a confiar... nem todas as pessoas são iguais... dir-lhe-á a rapariga, malas prontas, bilhete de avião na mão. Nesta cena é risível o ar de rapazinho mimado que o Woody afivela para a convencer a ficar. Ainda mais risível porque ao longo do filme é ele que a incentiva a avançar com a sua vida, é muito jovem, a diferença de idades, etc. e tal... Mas aqui vence o medo de ficar sem ela, de naqueles meses de ausência ela conhecer outro, jovem como ela... Mas a Muriel está segura, e aqui é ela a adulta da relação, lembrando-nos a constância e a lealdade, perdidas em tantos adultos...

 

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publicado às 16:42

A família como lugar onde ainda é possível relativizar o drama

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 20.03.08

 

É cómico-dramático acompanhar esta família numa viagem (metáfora da própria vida) e todos a empurrar a carrinha (metáfora da união do grupo).

Mais cómico-dramático porque vemos as suas mazelas: o tio que sobrevive a uma tentativa de suicídio depois de uma desilusão amorosa e a perda do emprego como professor universitário (além da perda do prémio como especialista de Proust); o avô que se droga no quarto e que morrerá de overdose num motel a meio caminho do concurso Little Miss Sunshine (e ainda por cima deixando a neta sem treinador); o pai que perde um negócio importante, a edição de um livro de auto-ajuda, os Nine Steps, que nem sequer lhe servirá a ele nem a nenhum membro da família; o filho que descobre de forma casual que é daltónico, o que o impede de realizar o seu maior sonho: seguir a carreira de piloto; a mãe que tenta segurar todas as pontas mas que está feita num frangalho.

E no entanto… todos empurram a carrinha! Vem daí a sua força. No meio do desespero, da aflição, estão todos juntos.

Cenas inesquecíveis:

Diálogos tio-sobrinho, o primeiro no quarto e a referência a Nietzsche e ao pacto de silêncio do adolescente; o segundo em frente do mar, breve intervalo da sua vida de losers (desta vez a referência é Proust, e como aliás refere o tio: quem mais loser do que Proust?)

Ao longo da atribulada viagem, as corridas, um a um, ao lado da carrinha, até conseguirem entrar.

Toda a sequência no hospital em que ultrapassam as regras e a necessária papelada: até depois de morto o avô fará parte desta aventura.

Um pequeno grupo de pessoas, tão vulneráveis, que sobrevive às perdas e decepções. A família como lugar onde ainda é possível relativizar o drama. O drama da própria existência.

 

 

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publicado às 15:35

"Aqueles Verões salvaram-me a vida..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.03.08

 

A Good Yearé uma história muito simples. No fundo, é sobre a vida, a amizade, o amor. Os dias felizes.

A personagem dirá a meio: Aqueles Verões salvaram-me a vida. A vida, que o nosso herói vê perfeitamente no dilema que lhe é colocado pelo chefe: É só escolher… o dinheiro… ou a vida.

E tudo se compõe porque a base estava lá. O tio, a casa, a vinha, a amizade, a vida afinal.

O excêntrico tio que um dia na adega perguntara ao sobrinho: “O que é mais importante na comédia?” E a resposta certa: “O timing.”

Em Ridley Scott o timing é fundamental. Assim como a noção de ritmo: rápido ou lento, aos solavancos ou em valsa, sincopado ou deslizante. E tudo no tempo certo.

Numa linguagem tão complexa e diversa, como é a do cinema, pode contar-se uma história de mil e uma formas. E é isso que o torna fascinante.

 

 

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publicado às 12:40


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